Eu não quero sair daqui e me colocar a perder de vista por alguns momentos. A minha vida valeria a pena se você valesse a galinha que te consome enquanto eu fico aqui, perguntando o que acontece com meus pensamentos. Eles estão embaralhados, bem sei disso. Sei, também, que eu tenho grande parte da culpa neste cartório de processos arquivados. Aliás, é dentro deste mesmo cartório que meus fantasmas permanecem escondidos. Eles vagam entre um papel e outro, remexendo as pastas que coloquei nas últimas prateleiras da sala fechada.
Quando percebo que as coisas começam a acontecer sem que eu tenha habilidade para segurá-las, dá uma vontade imensa de chorar por que sei que, a partir daí, a escolha é minha. Minha estrada de tijolos amarelos se divide ao meio e não me resta sequer o Espantalho para oferecer ajuda. E quem é que disse que vou encontrar o Homem de lata e o Leão? Não vou encontrá-los, sei disso.
Enfim, estávamos sentados lado a lado, ensaiando como deveríamos dar as mãos, mas elas não se entrelaçavam.
Você contou com eloqüência sobre seus últimos dissabores, sem imaginar as desilusões que eu carregava. Pensou-me forte, e livre. Até pensou que era apegada ao desapego. Mas eu sabia que era como se o mundo não existisse antes. Ou melhor, o mundo existiu e tinha um marco: antes e depois de você.
Não havíamos planejado nada do que estava acontecendo. E meu medo? Bem, passei por cima dele, ciente de que, como minha escolha, qualquer machucado seria culpa minha.
Tá, ninguém deve assumir a culpa inteiramente só, porém eu assumo. E quer saber o motivo?
Eu sinto o que pode acontecer. Eu sinto os riscos que todos nós estamos expostos. Estou. Você está. Não adianta negar. Todo e qualquer ser humano é vunerável ao erro e a dor. Por mais que não queiramos, por mais injusto que seja, aconteceu.
Se estou bem? É um pergunta que não posso responder agora. Vou precisar de um tempo pra chegar a uma conclusão acertada.
Eu sei o que devo fazer. Sei também qual é o erro. E imagino como pode ser o meu gasto. Mas há uma chance e essa tentativa é minha, ninguém vai tirar o meu direito, nem meu esquerdo!
Quer saber? Ta na hora de me levar a sério. Você não, eu. Senti que preciso disso, afinal, também me fechei para o mundo por muito tempo. Mas agora é hora de me doar e eu quero que o mundo me receba de braços abertos e sorriso largo no rosto. Não, não precisa apressar a sua liberdade. Não precisa se permitir ser feliz se não quiser. Da mesma maneira que faço minhas escolhas, não posso fazer as suas. Isso depende de você. E quer saber mais um pouco?
Eu to verbalizando minha vida. Afinal, isso vem de longa data: nasci.

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"Quando eu quis você,
Você não me quis
Quando eu fui feliz
você foi ruim
Quando foi afim
Não soube se dar
Eu estava lá mas você não viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo em mim.
[...]
Mas se eu já me perdi
Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você?"
(Arnaldo Antunes, 2 Perdidos.)