Esta foto fora um presente do filho mais velho daquela família de quatro pessoas dado à sua mãe às vésperas do seu embarque para a guerra. Aquela senhora sustentava o marido que deixou de trabalhar prematuramente devido a um acidente de trabalho que lhe custou o braço e nenhuma renda na aposentadoria; e ao seu filho mais jovem que sofria de uma doença para a qual nenhum médico, padre ou benzedeira havia dado solução. Era um mal do espírito, dizia.
O jovem soldado sabia dos riscos da sua carreira, mas não queria deixar somente sobre os ombros da mãe o sustento de mais duas bocas. Resolveu ser militar porque era a opção que lhe restava. Além disso, nutria a esperança que um filho no exército traria alguma orgulho ao peito do pai que tanto sofria com o seu próprio destino.
A foto emoldurada era o único registro que aquela senhora preservou de sua família. Dizia que era desta imagem que tirava suas forças, pois tinha a cerrteza de que seu o filho no quadro a acompanhava durante todo o tempo. Seu marido morreu antes mesmo de saber que o filho soldado jamais voltaria das batalhas. Seu filho mais novo a abandonou para encontrar o irmão, segundo ele mesmo contou antes de se jogar na frente de um caminhão. Por isso a senhora, que dantes sustentara o lar passionalmente não atirou aquela fotografia contra o chão quando recebeu a notícia de que seria impossível chorar sobre o corpo de seu filho mais velho, uma vez que recebeu apenas o seu coração em uma caixa. Inexplicavelmente, este teria sido o único orgão que resistiu a explosão que o vitimou. Ela aceitou aquele pedaço de carne com a esperança de que ele ainda estava vivo em algum lugar. E esperaria por ele.
Na noite em que se juntou aos seus, ela estava acariciando a fotografia - como fazia todos os dias -quando acidentalmente deixou que o quadro caísse no chão. E foi sob lágrimas que ajoelhou no chão sem se importar com os cacos de vidro que o acidente provocou e, como que em penitência, descobriu e leu a mensagem que seu filho mais velho havia escrito no verso da fotografia:
Querida Mãe,
Se esta lendo esta mensagem é porque jamais retornei da guerra. Por isso pedi ao fotógrafo que fizesse com que os meus olhos a acompanhassem sempre que olhasse para mim. Eu queria estar sempre junto da senhora, assim como trago toda sua força e carinho dentro de meu coração.
Sempre te amarei.
Seu filho.
Não foi a emoção ou tristeza que levaram a sofrida senhora. Tenho plena certeza de que aceitou partir da vida porque finalmente teve a confirmação de que não precisaria mais esperar por seu amado filho.



